quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Declaração de Córdoba XVIII Conferência Internacional do MINOM

Declaração de Córdoba
XVIII Conferência Internacional do MINOM

A museologia que não serve para a vida, não serve para nada.

Córdoba / Argentina, 2017


Nós, integrantes do MINOM, presentes em Córdoba, Argentina, entre os dias 9 e 14 de outubro de 2017, repudiando os golpes contra a democracia, os direitos humanos e os direitos da natureza (a Pachamama, a Mãe Terra), entendidos como direitos integrais, Retomando as declarações do MINOM de Nazaré (2016), Havana (2014) e Rio de Janeiro (2013), Consideramos que: A museologia que não serve para a vida, não serve para nada;

Guardamos no corpo todas as memórias;

A museologia que praticamos envolve afetos, fraternidade, reciprocidade, amor, alegria e poesia;

A memória, para todos nós, constitui una forma deliberada de resistência, de luta contra a destruição dos modos de vida que não se enquadram em nenhuma forma de colonialismo, entre as quais se encontram o sistema capitalista, o patriarcado e outras.

A memória é, ao mesmo tempo, a afirmação dos valores humanos, da dignidade e da coesão social, colocando-se como ação propositiva de ocupação do presente e invenção de futuros;

O museu é um lugar de encontro que pode contribuir para una cultura de paz com voz e sem medo;

No mundo contemporâneo observa-se o recrudescimento e a multiplicação das formas de violência e fascismos dirigidas contra os povos indígenas, comunidades camponesas, comunidades urbanas populares, negrxs, mulheres, crianças, comunidades LGBTT, migrantes, imigrantes, refugiadxs e todas suas intersecções e transversalidades, incluindo todxs aquelxs que não se enquadram no modelo hegemônico;

Em nome do desenvolvimento, entendido como progresso baseado na exploração, as grandes corporações e o poder público (em aliança), avançam sobre os territórios destruindo a natureza e os vínculos sociais;

O constante deslocamento ou remoção forçada de populações e a falta de reconhecimento dos territórios ancestrais e da propriedade coletiva da terra, impõem modos de vida desumanizantes, que implicam a ruptura de laços e estruturas sociopolíticas, bem como a produção de mais fragmentações e vulnerabilidades sociais;

A noção hegemônica de patrimônio traz um vetor patriarcal y patrimonialista incapaz de abarcar os múltiplos sentidos e solidariedades implicados na produção e comunicação das culturas, onde estão presentes as condições para o reconhecimento de uma herança que se constrói e se comparte aqui e agora, e que pode ser denominada como fratrimônio e soromônio, integrando o natural e cultural, o material e o imaterial;

A censura das expressões culturais e artísticas ocorridas em nossos países são atos de exclusão que vão contra a filosofia e as práticas da Museologia Social;

Os museus são espaços potentes para enfrentar o racismo, a homofobia, a lesbofobia, a transfobia, a xenofobia, a aporofobia, o machismo e o sexismo;

As pessoas em situação de privação de liberdade (no âmbito do marco legal) sejam crianças, jovens ou adultxs, devem ter garantidos todos os seus direitos humanos, incluídos os direitos culturais;

Todas as práticas museológicas implicam compromisso ético que deve contemplar a participação das comunidades nas decisões que envolvem o uso, a exposição, a interpretação e o destino de seus bens e manifestações culturais;

Compromissos:
  • Criar a partir dos museus programas e ações concretas visando a participação ativa das comunidades na tomada de decisões sobre as ações museológicas em que estão envolvidas.
  • Promover mudanças internas em nossas instituições a favor da de(s)colonização de práticas pedagógicas, bem como da formação professional e da pesquisa nos museus.
  • Promover políticas públicas de descentralização em museus e espaços culturais públicos que concentram recursos e influências com o objetivo de que possam abrir portas para experiências de autogestão no âmbito da Museologia Social focada no território, em articulação com os coletivos comunitários pré-existentes.
  • Propor mingas (1) , mutirões e parcerias inter museu e entre museus, visando a redistribuição e circulação de recursos, saberes e experiências.
  • Gerar e propiciar espaços e encontros trans e interdisciplinares com o objetivo de dar continuidade aos debates e promover a criação de redes de Museologia Social ao nível local, nacional e regional.
  • Contribuir para o fortalecimento do MINOM como movimento internacional para a nova museologia.
  • Promover a prática da MuseologiaSocial em espaços hegemônicos.
  • Criar ambientes, espaços e estratégias que permitam o encontro crítico para o diálogo e a construção de identidades.
  • Conhecer e transformar as práticas museológicas vigentes nas instituições com e a partir dos recursos disponibilizados pela Museologia Social.
  • Desenvolver programas que levem os museus para fora de seus muros e convidem as comunidades a conviver com os patrimônios que os habitam. 
  • Criar e desenvolver agendas educativas para visibilizar situações e realidades sociais que produzam impactos na comunidade.
  • Construir filosofia de trabalho que oriente as ações do museu e de seus trabalhadores visando fortalecer os movimentos de transformação social.
  • Compreender a Museologia Social como una ferramenta colocada à disposição das comunidades e favor da resistência, da visibilização e da inclusão.
  • Incorporar, em nossas propostas museológicas e museográficas, bem como no trabalho de mediação, uma linguagem inclusiva no que se refere à diversidade cultural e de gênero.
  • Promover o desenvolvimento de espaços que fomentem relações sociais de complementariedade, autenticidade e solidariedade.
  • Construir de modo participativo uma agenda de trabalho que oriente as políticas e ações dos museus, incluindo as problemáticas, interesses e desejos das comunidades e coletivos sociais com os quais nos relacionamos.
  • Gerar exposições que contemplem a tomada de decisões conjuntas entre museus, comunidades e coletivos sociais em todas suas etapas (proposta conceitual, construção narrativa, proposta museográfica, montagem e proposta pedagógica).
  • Ampliar a colaboração entre museus e fortalecer o trabalho em rede visando aprimorar a formação de seus trabalhadores e examinar nossas condições e práticas trabalhistas.
  • Difundir e discutir a Museologia Social em nossos espaços de trabalho.
  • Finalmente, Exigimos que Santiago Maldonado nos seja devolvido vivo e exigimos também a libertação de Milagro Sala. A vida dos companheirxs apontam para a emergência de um contexto de luta que denuncia a grave situação em que vivem os povos indígenas americanos, o que implica a criminalização e a judicialização de suas reinvindicações e até mesmo de suas condições de vida, incluindo a inviabilização e a negação de que possam viver em sintonia com as suas próprias cosmovisões, onde o território é parte vital. Neste contexto, exigimos a aprovação da extensão da Lei 26.160, referente à Emergência Territorial Indígena e a revogação da Lei 26.331 do Bosque Nativo, ambas na Argentina.
Reconhecemos Paulo Freire como educador e professor de educação popular, que inspira filosofias e práticas de Museologia Social em todo o mundo. Repudiamos a intenção de um grupo da sociedade brasileira que quer revogar o título de Patrono da Educação, concedido a Paulo Freire, pelo povo brasileiro, por meio do Congresso e da lei 12.612, de 03 de abril de 2012.

Por último: NENHUMA A MENOS, VIVAS NOS QUEREMOS!

"Você têm que se despreender de sua própria imaginação para comunicá-la e transmiti-la aos  outros. Assim, você poderá compartilhar a sua imaginação com os outros e os outros vão deixar algo para você também” (Noam, 7 anos. Participante ativo da XVIII Conferência Internacional do MINOM)


(1) Trata-se de uma palavra de origem “Qhichua” que reúne conceitos complexos e que implica os sentidos de mutirão, parceria, fazer junto, préstimos, cooperação, reciprocidade e assim por diante. Por tudo isso, decidimos mantê-la e incorporá-la ao vocabulário do MINOM.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Programa do V Colóquio da Rede de Museus Rurais do Sul

Faz exactamente amanhã, dia 13 de Outubro (6ª feira da Feira de Castro) 2 anos sobre a criação da Rede de Museus Rurais do Sul. Um percurso feito de 4 colóquios, para além de muitas reuniões entre os museus fundadores que fazem deste projecto um momento importante da vida do nosso Museu. Que melhor "prenda" que a publicação do programa provisório do V Colóquio da Rede de Museus Rurais do Sul, que terá lugar a 17 de Novembro, no Museu da Farinha, em S. Domingos, Santiago do Cacém. As inscrições (gratuitas) podem ser feitas através do mail museururalidade@gmail.com.Tendo como tema de fundo a molinologia, este será um tema que trará muitas novidades sobre esta temática, sobretudo pela investigação ainda inédita efectuada na nossa região.



quinta-feira, 28 de setembro de 2017


Em 1966, podiam votar no concelho de Castro Verde, 30 mulheres



A década de 60 do século XX, marca um dos mais dramáticos momentos da história da demografia do concelho de Castro Verde, em particular, mas de Portugal em geral. Com 11 637 habitantes em 1960, Castro Verde tem 9004 em 1970. Destes, cerca de 7000 estavam em idade de poder exercer o seu direito a voto. No entanto, os Cadernos Eleitorais de 1966 das freguesias do concelho, mostram uma realidade completamente diferente. O concelho tinha apenas 1209 eleitores inscritos dos quais 30 (trinta!) do sexo feminino.
A Freguesia de Castro Verde tinha 653, Entradas 184, Santa Bárbara de Padrões 142, Casével 116 e São Marcos da Atabueira 114.
Estamos no início do fim do Estado Novo, onde o direito de cidadania era filtrado e condicionado e, sobretudo, impedido o seu acesso às mulheres.
O artigo 10º da Lei 2015 de 28 de Maio de 1946, era claro quanto a quem poderia votar. Cidadãos portugueses do sexo masculino que soubessem ler e escrever era condição obrigatória e, excecionalmente, a quem tivesse contribuições não inferiores a 100$00. As mulheres, só as emancipadas (viúvas, divorciadas, judicialmente separadas ou que pagassem pelo menos 200$00 de contribuição predial) mas que tivessem as seguintes habilitações mínimas: curso geral dos liceus, curso do magistério primário, curso de escolas de belas artes; curso do Conservatório Nacional ou do Conservatório de Música do Porto ou o Curso dos institutos comerciais e industriais.
Um leve olhar sobre os Cadernos Eleitorais de 1966, permitiram-nos constatar que em Casével podiam votar 4 mulheres. Duas proprietárias (com 47 e 62 anos de idade) e duas professoras (21 e 23 anos de idade).
Em Castro Verde, podiam votar 11 mulheres: quatro proprietárias, com 37, 47, 62, 66 anos de idade, duas funcionárias, com 21 e 40 anos, 4 professoras, com 24 (duas), 25 e 30 anos de idade, e 1 auxiliar de limpeza, com 48 anos.
Em Entradas, podiam votar 10 mulheres: quatro domésticas, com 48, 67 (duas) e 69 anos de idade; 3 professoras, com 22 e 23 (duas) anos de idade e 4 proprietárias, com 49, 57 e 73 anos de idade.
Em Santa Bárbara de Padrões, podiam votar 3 mulheres: duas regentes escolares, com 27 e 40 anos e uma professora com 25 anos de idade.
Em São Marcos da Atabueira, podiam votar 2 mulheres: duas regentes escolares, com 29 e 30 anos de idade.

Hoje, todos os cidadãos maiores de 18 anos, sem excepção, podem exercer livremente o seu exercício de voto, sem que o género, a orientação sexual, a religião, a cor, a condição social, económica ou cultural o impeça! 
Hoje vivemos em Liberdade!
#eleiçõeslivres #estadonovo #castroverde #ruralidade #mulheres#eleiçõesnofascismo

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

V Colóquio dos Museus Rurais do Sul

Realiza-se a 17 de novembro, no Museu da Farinha, em S. Domingos, Santiago do Cacém, o V Colóquio da Rede de Museus Rurais do Sul. Uma viagem às questões da molinologia e onde serão apresentados alguns dos levantamentos que estão a ser feitos no âmbito dos museus da rede, para além de visitas de trabalho a uma azenha e um moinho de água. A não perder! O programa definitivo será divulgado durante a segunda semana de outubro. Mas todos os interessados poderão fazer a sua inscrição, desde já, para museururalidade@gmail.com, ou pelo telefone 286915329. 

#museusruraisdosul #ruralidade #moinhos #azenhas #campobranco#molinologia



terça-feira, 15 de agosto de 2017

Ida a Banhos em 1941



Iam dos Aivados a banhos para a Água Santa da Herdade de S. João, no limite do concelho de Castro Verde, freguesia de S. João dos Caldeireiros, Mértola. Estávamos em 1941, dia 15 de setembro, e o carro de parelhas levava todos os apetrechos para uns tempos diferentes. A fotografia foi cedida por Maria José Anacleto Sobral, moradora na Moita e nascida nos Aivados.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Museu edita "Bailado Rural" de Rui Santana e Filipe Pilar



Acaba de ser editado pelo Museu da Ruralidade o trabalho original de música electrónica "Bailado Rural", da autoria de Rui Santana e Filipe Pilar.
Doze faixas compõem este trabalho que pretende dar corpo a um dos objectivos de intervenção do Museu da Ruralidade: Valorizar a memória da ruralidade, construindo diversidade
O papel de um Museu impõe-se na forma como interage com os seus públicos, no trabalho de interacção com a comunidade onde está integrado e com o método utilizado nas várias abordagens ao processo museológico e museográfico. 
A relação com os potenciais públicos é, aos olhos dos nossos dias, uma preocupação fundamental dos museus, sobretudo na procura de que o visitante, o “utente”, o consumidor de museus seja também uma voz crítica desse mesmo espaço e, assumindo-o ou reconhecendo-se nele, seja um dos seus principais promotores. 
O Museu, como território de construção de dúvidas e de saberes, tem que atingir, neste tempo de contemporaneidade, a versatilidade na actividade, a multidisciplinaridade na abordagem ao “objecto” (lato sensu) em exposição, o fabricar de uma abordagem multicultural que seja integradora de qualquer fenómeno social, antropológico ou cultural e, como tal, do indivíduo. 
Acima de tudo, um museu tem que estar em constante diálogo com o presente para poder responder às exigências do dia-a-dia, não perdendo o espaço de diálogo que se exige ter numa sociedade muito centrada no indivíduo, no efémero e na banalização do acontecimento, seja ele qual for. 
É neste contexto que o Museu da Ruralidade edita este “Bailado Rural”, um trabalho de Rui Santana e de Filipe Pilar, uma proposta de banda sonora para o Museu e que foi apresentada na edição do Entrudanças de 2015. 
Uma conjugação de sonoridades electrónicas e tradicionais na construção de uma ambiência que evoca o mundo rural e as suas gentes.


1. O Moinho / 2:02
2. Natural Mundo Rural / 4:05 (Ambiente sonoro captado algures entre Castro Verde e Entradas)
3. Dia de Ceifa / 4:00
4. Descarolador / 1:01 (Som captado no interior do Museu da Ruralidade)
5. Debulhadora Fixa / 4:12
6. A Marcha / 4:05 (Participação especial dos Ganhões de Castro Verde)
7. Tarara / 1:02 (Som captado no interior do Museu da Ruralidade)
8. O Moinho e o Moleiro / 4:10
9. O Ferreiro / 4:06
10. Baila a Campaniça / 4:15 (Participação especial de José Abreu)
11. A Grande Feira / 4:12
12.O Moinho / 2:02

Miguel Rego